Em dezembro de 2015, participei de uma reportagem do Estado de Minas, publicada no Portal UAI, sobre dietas da moda. O alerta era familiar: a promessa de emagrecer rapidamente pode levar pessoas a seguir restrições sem compreender se elas fazem sentido para sua saúde e sua rotina.

Ao reler aquela entrevista em 2026, encontro uma ideia que continuo defendendo: o planejamento alimentar precisa ter continuidade. Também encontro expressões que hoje merecem uma explicação melhor. Atualizar um conteúdo profissional inclui reconhecer esses dois lados.

Esta reflexão parte das falas que a reportagem atribuiu a mim. O texto original também reúne outros entrevistados e um relato pessoal; nem todas as recomendações ali publicadas representam minha posição. Você pode consultar o registro da participação no acervo do site e a reportagem original. [1]

 O que mantenho e o que hoje explico de outra forma

O alerta contra fórmulas mágicas permanece. Uma proposta alimentar merece ser avaliada pelo que oferece, por seus limites e por sua adequação à pessoa, não apenas pelo entusiasmo de quem a divulga.

Na entrevista, minha abordagem foi descrita como dieta de nutrientes. Prefiro que a orientação atual seja compreendida pelos seus critérios: quais necessidades estamos atendendo, que mudanças são viáveis e como vamos avaliar a resposta. O nome de um método, por si só, não comprova seu benefício.

Tema  Como apareceu em 2015 Como explico em 2026
Qualidade e energia Ênfase nos nutrientes, com calorias em segundo plano Qualidade nutricional e adequação energética precisam ser avaliadas juntas
Saciedade  Linguagem próxima de uma garantia de não sentir fome Buscar refeições satisfatórias e ajustar o plano conforme a resposta
Individualização  Destaque à chamada dieta de nutrientes Explicar necessidades, preferências, contexto clínico e limites
Continuidade  Crítica às fórmulas mágicas e defesa do longo prazo Manter esse princípio, com apoio e ajustes compatíveis com a vida real
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As formulações resumem as ideias discutidas no artigo; não são citações literais da reportagem.

Calorias e nutrientes não precisam disputar espaço

Ao valorizar os nutrientes, a intenção é olhar para o que os alimentos oferecem. Mas seria inadequado transmitir a ideia de que a energia consumida deixou de importar.

Quando o objetivo é perder peso, o planejamento precisa considerar o balanço energético. Isso não obriga toda pessoa a contar calorias diariamente. A organização de porções e refeições pode ser conduzida de diferentes formas. Quantificar é uma ferramenta possível; não é o único caminho para estruturar o cuidado. O NIDDK inclui necessidades de energia e nutrientes entre os componentes de programas individualizados de controle do peso. [5]

Também não basta escolher alimentos apenas pela quantidade de calorias. A orientação da OMS atualizada em 2026 destaca adequação, equilíbrio, moderação e diversidade, com atenção à qualidade dos alimentos. [3]

Minha formulação hoje seria: a qualidade importa, a quantidade também, e precisamos encontrar uma maneira de trabalhar com ambas que a pessoa consiga aplicar.

Low carb: uma possibilidade, não uma resposta universal

O debate sobre dietas frequentemente vira uma disputa entre carboidratos e gorduras. Uma estratégia com redução de carboidratos pode ser adequada em determinados contextos; isso não a transforma na melhor escolha para todas as pessoas.

No ensaio DIETFITS, 609 adultos sem diabetes foram acompanhados em duas intervenções: alimentação saudável com menos gordura ou com menos carboidratos. Aos 12 meses, a perda média foi de 5,3 kg e 6,0 kg, respectivamente, sem diferença estatisticamente significativa entre os grupos. As intervenções incluíam apoio comportamental e preocupação com a qualidade dos alimentos. [2]

Isso não prova que todas as dietas sejam iguais. Mostra que, naquele estudo, escolher um dos dois rótulos não determinou uma vantagem clara em perda de peso. A resposta individual também variou bastante.

Um estudo hospitalar menor, publicado em 2021, ajuda a questionar explicações simplistas. Vinte adultos foram randomizados para consumir, em sequência, duas dietas minimamente processadas: uma vegetal com pouca gordura e outra de origem animal cetogênica. A ingestão energética foi menor na primeira, contrariando a previsão de que o padrão com mais carboidratos necessariamente levaria a maior consumo. Cada fase durou somente duas semanas: não é um veredito sobre qual dieta funciona melhor por anos. [4]

O aprendizado para o leitor é ter cautela com explicações que atribuem todo o resultado a um único hormônio ou nutriente.

Comer melhor não significa eliminar todos os carboidratos

Frutas, feijão, hortaliças e grãos integrais fornecem carboidratos junto com fibras e outros nutrientes. Não faz sentido colocá-los automaticamente na mesma categoria de bebidas açucaradas. A OMS prioriza justamente a qualidade das fontes de carboidratos. [3]

Na prática, eu começaria perguntando como a alimentação está organizada antes de propor exclusões amplas. Há espaço para refeições que a pessoa aprecia? As porções são compatíveis com suas necessidades? Existem dificuldades de acesso, horário ou preparo?

Uma restrição específica precisa de uma razão específica. Popularidade, medo e regras copiadas de outra pessoa não substituem essa avaliação.

Saciedade: um objetivo de cuidado, não uma promessa

Outro ponto que hoje eu comunicaria com mais cuidado é a expectativa de não sentir fome. Planejar refeições satisfatórias é desejável; garantir uma experiência igual para todas as pessoas não é.

A conversa sobre fome deve ajudar a ajustar o plano, não a julgar o paciente. Eu procuraria entender quando ela aparece, como as refeições estão distribuídas e quais dificuldades estão tornando a estratégia insustentável.

Da mesma forma, não usaria a presença ou a ausência de fome como prova isolada de que uma dieta está correta. Uma orientação responsável precisa prever acompanhamento e espaço para revisão.

Individualizar não é procurar uma dieta perfeita no DNA

Personalizar começa com informações concretas: condições de saúde, rotina, preferências, acesso à comida e objetivos. Não depende de prometer que um exame encontrará a dieta ideal.

O DIETFITS também testou se os padrões genéticos e a secreção de insulina avaliados ajudavam a escolher entre as duas intervenções. Essa hipótese não foi confirmada. O resultado se refere àqueles marcadores e àquelas dietas; não permite descartar toda a pesquisa em genética nutricional. [2]

Para mim, a individualização deve aparecer nas decisões e nos ajustes, e não apenas no nome de um exame ou na apresentação de um cardápio.

Em 2026, o cuidado também precisa caber fora do consultório

Uma lista de alimentos pode parecer simples no papel e ser difícil de aplicar em dias de trabalho, viagens, treinos e refeições em família. Por isso, avaliar viabilidade deve fazer parte da escolha desde o início.

O tratamento do excesso de peso também pode envolver uma equipe e, quando há indicação médica, medicamentos ou cirurgia. Reconhecer essas possibilidades não transforma o cuidado em uma fórmula mágica. São recursos com indicações próprias, associados a acompanhamento e mudanças sustentáveis. [5]

Um plano que precisa ser ajustado não representa fracasso. Acompanhamento serve justamente para observar dificuldades e reorganizar o caminho.

Seis perguntas antes de começar uma dieta

  1. Por que essa restrição? Existe justificativa para retirar alimentos ou grupos inteiros?
  2. É adequada à minha saúde? Considera diagnósticos, medicamentos e necessidades individuais?
  3. Cabe na minha rotina? Respeita orçamento, preferências, preparo e vida social?
  4. Como vou me sentir? Como serão acompanhados fome, sintomas e disposição?
  5. O que será avaliado? Além do peso, quais resultados importam para meu objetivo?
  6. E depois da fase inicial? Há apoio e um plano para manter e ajustar as mudanças?
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Perguntas para orientar uma conversa individualizada; não constituem teste ou diagnóstico.

Estas perguntas são um roteiro de conversa, não um teste que aprova ou reprova dietas. Promessas garantidas merecem cautela. Sintomas e mudanças importantes na alimentação devem ser discutidos com profissionais que conheçam seu contexto.

O que eu diria hoje a quem está cansado de tentar

Eu começaria pelas dificuldades que ainda não foram resolvidas. O plano era caro? Exigia uma rotina impossível? Você ficou sem opções para comer fora? As orientações eram confusas? Houve acompanhamento para ajustar o que não funcionou?

Revisitar 2015 reforça minha defesa de um planejamento duradouro. Em 2026, quero comunicar esse compromisso com mais precisão e menos certezas universais: uma alimentação adequada precisa fazer sentido para a saúde e para a vida de quem vai praticá-la.

Se você deseja construir esse caminho com acompanhamento, conheça como funciona meu atendimento nutricional. A avaliação permite discutir objetivos e organizar uma estratégia individual, sem promessa de resultado garantido.

Perguntas frequentes

Toda dieta low carb é uma dieta da moda?

Não. Uma estratégia com redução de carboidratos pode ter indicação. O problema é apresentá-la como solução universal ou prescrevê-la sem considerar necessidades e contexto individual.

Preciso contar calorias para emagrecer?

Não necessariamente. A adequação energética importa, mas pode ser trabalhada por meio de porções, organização das refeições e outros recursos. A escolha da ferramenta deve considerar a pessoa e o acompanhamento.

Referências

  1. Furbino Z. Veja por que você deve fugir das dietas da moda. Estado de Minas/Portal UAI. 29 dez. 2015. Reportagem original.
  2. Gardner CD et al. Effect of Low-Fat vs Low-Carbohydrate Diet on 12-Month Weight Loss in Overweight Adults and the Association With Genotype Pattern or Insulin Secretion: The DIETFITS Randomized Clinical Trial. JAMA. 2018;319(7):667–679. DOI: 10.1001/jama.2018.0245.
  3. World Health Organization. Healthy diet. Atualizado em 26 jan. 2026. Orientações institucionais.
  4. Hall KD et al. Effect of a plant-based, low-fat diet versus an animal-based, ketogenic diet on ad libitum energy intake. Nature Medicine. 2021;27:344–353. DOI: 10.1038/s41591-020-01209-1.
  5. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Treatment for Overweight & Obesity. Revisado em maio de 2023. Informações institucionais.

Fontes consultadas em setembro de 2026. Conteúdo educativo; não substitui avaliação individual.

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