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Há mais de uma década, participei de uma reportagem da Revista Suplementação sobre dieta cetogênica e cetose. Na época, destaquei possíveis benefícios para perda de gordura e preservação muscular. Hoje, algumas dessas frases exigem mais contexto — e algumas eu formularia de outra maneira. Revisitar aquela conversa é uma oportunidade de mostrar como a orientação nutricional melhora quando as perguntas e as evidências evoluem.
Não se trata de apagar a entrevista. Ela registra o que eu disse em um momento da minha trajetória profissional. O objetivo aqui é distinguir o mecanismo biológico, os resultados dos estudos e a decisão de aplicar uma estratégia alimentar a uma pessoa concreta.
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Entrar em cetose descreve uma mudança no combustível disponível; não prova, por si só, que uma dieta é superior ou adequada para você.
O que é cetose nutricional?
Quando a oferta de carboidratos é bastante reduzida, o fígado aumenta a produção de corpos cetônicos, que passam a fornecer parte da energia usada por diferentes tecidos. Isso é cetose nutricional. Ela não significa que a glicose desapareceu do sangue: o organismo continua produzindo glicose e regulando sua concentração. Também não implica que apenas a gordura corporal seja usada; a alimentação pode fornecer parte importante da gordura oxidada.
Na reportagem antiga, a cetose foi chamada de “mecanismo de emergência” e associada à ausência de glicose. Eu substituiria essa explicação por outra: é uma adaptação metabólica que pode ocorrer com restrição de carboidratos ou jejum, sem que a pessoa esteja automaticamente em perigo. Cetose nutricional e cetoacidose diabética são condições diferentes. A segunda é uma emergência clínica relacionada à deficiência de insulina e a outros fatores precipitantes. [1, 2]
Dieta cetogênica emagrece mais e preserva músculos?
Ela pode ajudar algumas pessoas a reduzir a ingestão de energia e o peso corporal, especialmente se o padrão alimentar for viável e sustentado. No início, a balança também pode cair pela redução do glicogênio e da água associada. Essa mudança inicial não equivale integralmente à perda de gordura.
Minha fala antiga sugeria que a cetose mobilizaria muita gordura e permitiria preservar a massa magra com prejuízo mínimo. Hoje eu separaria três perguntas: houve perda de peso? Quanto foi de gordura? O que ocorreu com a massa livre de gordura, considerando ingestão de proteína, treinamento, hidratação e método de avaliação? Revisões encontram resultados diferentes conforme população e protocolo; nenhuma estratégia garante preservação muscular por simplesmente induzir cetose. [3, 4]
Cetose não é um atalho que dispensa a avaliação da ingestão alimentar, do treino e da adesão ao plano.
“O que eu manteria, reformularia e monitoraria hoje ao falar de dieta cetogênica”.
Dieta cetogênica e colesterol: como o LDL responde?
Na entrevista, associei a dieta a uma redução acentuada de colesterol total e LDL. Essa não é uma expectativa segura para todos. Uma revisão abrangente de ensaios encontrou benefícios em alguns marcadores, como triglicerídeos, mas também identificou aumento de LDL em determinadas comparações. Outro conjunto de ensaios encontrou resultados médios distintos, o que reforça a importância da composição da dieta e da resposta individual. [3, 5]
Portanto, se a estratégia for escolhida, importa observar quais gorduras entram no prato, a presença de vegetais e fibras, e a evolução do perfil lipídico. Não basta conferir o peso. Também não cabe afirmar, a partir de alterações em exames de curto prazo, que uma dieta reduz eventos cardiovasculares no longo prazo: essa conclusão exige estudos com desfechos clínicos. [3]
Dieta cetogênica e esporte: o desempenho melhora?
Eu disse que a redução de carboidratos poderia prejudicar o desempenho, especialmente quando é preciso sustentar esforços intensos e repor glicogênio. Essa preocupação continua pertinente, embora minha explicação antiga tenha sido simplificada demais. O posicionamento da International Society of Sports Nutrition relata efeitos em geral neutros ou desfavoráveis da dieta cetogênica sobre desempenho, em comparação com dietas com mais carboidratos, apesar do aumento da oxidação de gordura durante o exercício. Esforços intensos e explosivos merecem atenção especial; em provas muito longas, há estudos com resultados neutros, sem demonstrar uma vantagem geral. Os resultados variam com modalidade, duração, intensidade, período de adaptação e desenho do estudo. [1]
Para um atleta, o objetivo é alimentar o treino e a recuperação, não alcançar um número de cetonas por princípio. Uma fase de treinamento leve, uma prova de longa duração e uma sessão com tiros ou cargas altas fazem exigências diferentes. Não prescreveria restrição importante de carboidratos sem examinar o calendário esportivo e os sinais de baixa disponibilidade energética.
Há usos clínicos específicos?
Sim. Terapias dietéticas cetogênicas são uma opção estabelecida em determinados quadros de epilepsia resistente a medicamentos, dentro de protocolos especializados, com avaliação e acompanhamento. Isso não autoriza extrapolar o mesmo protocolo para emagrecimento ou afirmar benefícios comprovados para toda condição neurológica ou hepática mencionada na matéria antiga. [6]
Pessoas com diabetes também precisam de uma avaliação individual. Mudanças grandes nos carboidratos podem exigir ajuste de medicamentos e monitoramento. As diretrizes da American Diabetes Association de 2026 orientam desestimular um padrão cetogênico em quem usa inibidores de SGLT e tem risco de cetoacidose. Nessa situação, pode ocorrer cetoacidose euglicêmica, inclusive com glicose abaixo dos valores elevados geralmente associados à emergência; uma glicemia aparentemente tranquilizadora não exclui o problema. Não inicie nem interrompa medicamentos por conta de um plano alimentar. [2]
O que eu diria hoje a quem pensa em tentar?
Eu começaria pela meta, pelo histórico de saúde, pelos medicamentos, pelo treino, pela rotina e pelas preferências. Depois compararia a dieta cetogênica com outras alternativas capazes de atender ao mesmo objetivo. Se ela fizer sentido, planejaria a qualidade dos alimentos, a ingestão de proteína e fibra, a tolerância, os exames relevantes e a possibilidade de manutenção. Não recomendaria suplementos apenas para “entrar em cetose”: sua necessidade depende de avaliação específica.
A lição da entrevista antiga continua útil: uma estratégia pode funcionar em certo contexto sem se tornar regra universal. Se você quer cuidar do peso ou adequar a alimentação ao treinamento esportivo, conheça como funciona meu acompanhamento nutricional e agende uma consulta para avaliarmos uma abordagem compatível com sua saúde e sua rotina.
Referências e fontes
International Society of Sports Nutrition. Position stand: ketogenic diets. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2024;21:2368167. https://doi.org/10.1080/15502783.2024.2368167
American Diabetes Association Professional Practice Committee. 9. Pharmacologic Approaches to Glycemic Treatment: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). https://doi.org/10.2337/dc26-S009
Patikorn C et al. Effects of ketogenic diet on health outcomes: an umbrella review of meta-analyses of randomized clinical trials. BMC Medicine. 2023;21:196. https://doi.org/10.1186/s12916-023-02874-y
Coleman JL, Carrigan CT, Margolis LM. Body composition changes in physically active individuals consuming ketogenic diets: a systematic review. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2021;18:41. https://doi.org/10.1186/s12970-021-00440-6
Wang Z, Chen T, Wu S, Dong X, Zhang M, Ma G. Impact of the ketogenic diet as a dietary approach on cardiovascular disease risk factors: a meta-analysis of randomized clinical trials. American Journal of Clinical Nutrition. 2024;120:294–309. https://doi.org/10.1016/j.ajcnut.2024.04.021
Kossoff EH et al. Optimal clinical management of children receiving dietary therapies for epilepsy: updated recommendations of the International Ketogenic Diet Study Group. Epilepsia Open. 2018;3:175–192. https://doi.org/10.1002/epi4.12225
Cetose nutricional é a mesma coisa que cetoacidose?
Não. A cetose nutricional é uma adaptação metabólica. A cetoacidose é uma emergência clínica ligada à desregulação metabólica, especialmente em contextos de deficiência de insulina. Sintomas ou riscos exigem avaliação médica.
É preciso entrar em cetose para emagrecer?
Não. Pessoas podem reduzir gordura corporal com diferentes padrões alimentares que atendam às necessidades nutricionais e sejam sustentáveis.
A dieta cetogênica sempre reduz o colesterol LDL?
Não. A resposta varia, e alguns estudos identificaram aumento de LDL. Acompanhamento do perfil lipídico pode ser necessário.
Atletas devem evitar carboidratos para usar mais gordura como combustível?
Essa não é uma regra. A alimentação deve considerar modalidade, intensidade, sessões de treino, recuperação e objetivos.
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